Release

A capa insinua certeira: é do escuro que sai “Um sim”. Foi no quarto de Cimi, com luz apagada, que quase todas as dez canções do disco tiveram seu ponto de partida. E era no escuro metafórico que a cantora e compositora estava quando iniciou o processo de construção do álbum - sem ter canções, sem saber mesmo se aquele caminho que ela começaria a traçar se tornaria seu disco de estreia - até ali ela, que foi integrante do grupo Batacotô, já havia trabalhado com artistas como Marcelinho da Lua, com quem gravou uma versão de “Na Orelha do Pandeiro” (Aldir Blanc e Bororó) que ganhou o mundo nas coletâneas “Copa Bossa” e “Brazilectro”; Plinio Profeta, produtor de “Brazilian Chill Tracks”, álbum da Warner que tem entre suas faixas o clássico “Dona Maria” na voz de Cimi; e o DJ Nathan G, com o qual, nos cinco anos em que morou na Austrália, compôs “Underneath The Stars”, sucesso nas pistas do país.

 

Era nesse lugar escuro que estava quando mostrou uma música que começara a escrever a uma pessoa que conhecera há pouco tempo. Era Lucas Vasconcellos, àquela altura já chamado pra ser o produtor do álbum. Em pouco tempo, a canção, “Mil nãos, um sim”, estava terminada, e dela sairia o nome do disco.

 

O diálogo afinado e afiado entre a dupla resultou nas dez parcerias que aparecem no disco. Ela chegava com o início, a letra, a ideia, a melodia esboçada. Eles terminavam juntos. Lucas assumia então a construção do arranjo - minimalistas, explorando com delicadeza timbres acústicos e sintetizados, com climas que carregam o disco de uma dramaticidade sem peso. Ele mesmo tocou quase todos os instrumentos, com exceção da bateria, a cargo de Thomas Harres e, em "Mil nãos, um sim", de Robert "Mousey" Thompson, que tocou anos com James Brown - Cimi o conhecia e, quando estava gravando o disco, decidiu convidá-lo. Ele gostou da canção, e o resultado está no álbum.

 

O início era sempre o mesmo - o processo solitário do quarto escuro. Dali vinham as canções surgidas de um sonho, como "Bicho tenso" ("O bicho tenso/ Que quer fugir/ Não importando o terreno/ Vai voar, vai correr/ Mergulhar/ Esquecer") e "Acordei" ("Hoje acordei de um sonho/ Um sonho em preto e branco/ Quando olhei à minha volta/ Tudo lá, menos você"). Ou do voo solto da mente, como "Vou indo" ("Uma música triste de uma pessoa feliz", Cimi define). Ou vendo o filme de um casamento, em "Eu sou um cavalo" (“Comecei achando cafona e rindo e terminei chorando e com uma música”). 

 

- “Passei meses assim, acordava, sonhava, escrevia, vinham músicas, letras, histórias... As pessoas ao redor achavam que eu tinha entrado numa deprê, mas foi um mergulho mesmo”. - lembra Cimi. “O encontro com Lucas Vasconcellos foi importante para eu descobrir a minha sonoridade. O disco expressa minha alma naqueles momentos”, completa.

 

A poética que atravessa o disco carrega esse traço de limite entre claro e escuro de seu quarto, de sua mente. Nos versos simples, diretos, sem pirotecnias, há sempre a iminência da mudança, da ruptura, do salto. “Vou indo”, em meio a coros de "u-u-u" e "pá-pá-pá", diz “Vou ser feliz/ Eu sou feliz/ Você não quis/ Então vou indo”. Sobre as caixas de “Dá medo” - a percussão é uma respiração de frevo em meio ao tom Radiohead da música - ela canta: “Eu quero ver onde estou/ Onde fui, aonde vou/ Vou voar por aí/ E rir”. A elegância tanguística contemporânea de “Cala tua boca” serve de cama para versos como “Malas/ Abertas/ Vida jogada em cima da cama”. 

 

Cimi constrói ali, a partir do medo e do desejo, a ideia que aparece sintetizada no início da canção que serviu de estopim e de inspiração para o título do disco, “Mil nãos, um sim”: “Quero ir/ Mas eu não vou/ Posso ir/ Mas onde estou/ Estou bem”. Um lugar de conforto sem acomodação, do movimento sempre presente, ainda que como potência. Como algo que surge do escuro.

 

Por Leonardo Lichote